Mundial de Clubes


Apesar do revés brasileiro no último jogo da Copa do Mundo, em 16 de Julho de 1950, que culminou com o bicampeonato uruguaio, o sucesso técnico e financeiro da competição empolgou a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF) e a FIFA, que imediatamente - mais especificamente três dias após o encerramento do torneio - se reuniram para discutir a possibilidade da criação de uma espécie de “Copa do Mundo de Clubes”, algo inédito até então.

  O jornal "A Gazeta Esportiva" fez ampla cobertura desse encontro, que definiu os membros participantes da chamada "Comissão Diretora do Primeiro Torneio Internacional de Futebol", que seria coordenada por Ottorino Barassi, secretário-geral/vice-presidente da FIFA e presidente da Federação Italiana de Futebol - vale destacar também que Barassi colaborou de maneira importante para a fundação da poderosa confederação europeia de futebol (UEFA).

 Um dos primeiros problemas levantados e solucionados sobre o certame foi o de que o Brasil ainda não tinha um campeonato nacional para indicar um representante para o torneio internacional, e também não seria possível disponibilizar datas para a inclusão de uma nova competição no calendário nacional. Então ficou definido pela recém-criada comissão que os campeões estaduais de Rio de Janeiro e São Paulo seriam os representantes do Brasil no campeonato mundial, que inicialmente tinha a previsão de contar com a participação de 16 clubes.

Em Janeiro de 1951, o "Jornal do Brasil" informa que Ottorino Barassi e Stanley Rous (membros da FIFA e da Comissão do Torneio) vieram ao Brasil para discutir com a CBD sobre o Campeonato Mundial de Futebol. Entre outros assuntos abordados, o encontro também serviu para definir que seriam oito os participantes do torneio, pois as dificuldades da época com relação às viagens intercontinentais - que também atrapalhavam as Copas do Mundo - tornavam inviável a reunião de um número maior de equipes. Ainda no mesmo mês, o jornal "O Globo Sportivo" destacou a notícia de que o presidente da FIFA, Jules Rimet, concedia o apoio da entidade presidida por ele ao torneio que a CBD almejava realizar no Brasil. A citada matéria foi assinada pelo jornalista francês Albert Laurence, que à época era integrante dos periódicos "L'Équipe" e "France Football".
    Em Junho, para assegurar a qualidade técnica das partidas, a FIFA e a CBD oficializaram a Superball, bola utilizada na Copa do Mundo do ano anterior, como a bola oficial da competição interclubes.

O primeiro mundial interclubes

 Apesar das mesmas dificuldades com relação às viagens intercontinentais, a ideia foi bem aceita pela maioria dos clubes importantes inicialmente selecionados e poucas foram às recusas em participar da competição interclubes, diferentemente do que ocorrera em todas as edições do mundial de seleções disputadas até então, inclusive a realizada no mesmo Brasil, no ano anterior.
Portanto, mesmo considerando a possibilidade de uma ou outra ausência - algo comum nas Copas do Mundo -, a competição disputada no Brasil, com toda a estrutura da mais recente Copa do Mundo, foi criada com o explícito objetivo de dar ao seu vencedor o título de campeão do mundo.

Além disso, foi esta a repercussão (de campeonato mundial) que a conquista do Palmeiras teve na época, conforme você pode ver nas imagens abaixo. Sendo assim, consideramos o Palmeiras como o primeiro clube campeão mundial da história do futebol.

A antecipação e realização da segunda edição

Conforme o Artigo 1º do "Regulamento do Torneio de Foot-Ball de Campeões do Mundo", o certame seria realizado pela CBD, nos mesmos moldes, de dois em dois anos ou de quatro em quatro anos, a partir de 1951. Ottorino Barassi chegou a declarar publicamente que pensava em levar a disputa para a Itália - algo que a CBD prontamente rejeitou.

No entanto, em 20 de Janeiro de 1952, o Fluminense, que completaria 50 anos meses depois, sagrou-se campeão carioca de 1951. Com o feito, a diretoria tricolor, que já havia elaborado um estudo com a ideia da antecipação - desde que se sagrasse campeão estadual e que os demais clubes concordassem com a iniciativa -, passou a pressionar a CBD para antecipar e organizar a competição naquele ano, até porque era o atual campeão estadual e, “teoricamente”, teria direito a participar do mundial - também seria uma forma de comemorar em grande estilo o seu cinquentenário.

 A CBD sucumbiu - em partes - à pressão do clube carioca, aceitando antecipar e organizar a competição, mas se isentando de qualquer responsabilidade econômica sobre o evento, que seria exclusivamente por conta e risco do Fluminense, neste quesito. Vale ressaltar que, na época, o Tricolor das Laranjeiras era apontado como um exemplo de organização administrativa no mundo - inclusive, recebeu a famosa Taça Olímpica, em 1949.

 A FIFA, que estava às vésperas de uma eleição, foi comunicada, não se opôs de maneira formal com relação à antecipação do torneio, mas também não o apoiou de modo oficial e comprovado, como no ano anterior - talvez por isso a entidade máxima do futebol até hoje nunca tenha se posicionado quanto ao dossiê entregue pelo Fluminense, solicitando o mesmo reconhecimento do torneio como mundial, assim como conseguiu o Palmeiras com relação à edição de 1951. No entanto, vale ressaltar que, na época, quando questionados publicamente, os dirigentes da FIFA sempre se mostravam simpáticos quanto às pretensões da CBD e do Fluminense.

Desta forma, sem o apoio efetivo de membros da FIFA, aliado à repentina antecipação e pressa na sua realização - além de alguns entraves burocráticos que colocaram a disputa em risco por mais alguns meses -, o torneio não teve o mesmo impacto do ano anterior. Inclusive, isso se refletiu até mesmo no nível técnico dos participantes - como a competição não estava prevista para este ano de 1952, alguns clubes importantes não puderam participar, pois já estavam comprometidos com outros torneios.

Mesmo assim, a CBD e, principalmente, o Fluminense, conseguiram, com muitas dificuldades, reunir oito clubes - alguns deles acabaram terminando como vice-campeões em seus países - para a disputa da segunda edição do Torneio Internacional de Clubes, que passou a se chamar oficialmente de "Copa Rio" ou "II Copa Rio". Para garantir a imparcialidade e o caráter oficial da competição, foram trazidos árbitros internacionais para apitar os jogos, da mesma forma que no ano anterior.

 De modo geral, embora esta competição tenha ficado um pouco distante da primeira edição em vários aspectos, nossas pesquisas indicam que se trata da segunda edição do mesmo torneio. Portanto, utilizando-se do mesmo critério aplicado em outros casos, de outras competições consideradas no RCB - inclusive da Copa Intercontinental, que teve algumas edições com um impacto menor, até mesmo proporcionando um título mundial ao Atlético de Madrid, que era vice-campeão europeu em 1974 -, consideramos o Fluminense como o legítimo campeão mundial de 1952 - até porque não havia no planeta outra competição oficial que desse ao seu vencedor este mesmo título de campeão mundial.

Uma nova proposta

 Com o sucesso cada vez maior do torneio continental na Europa, voltou à tona a ideia de um novo mundial interclubes. A opção mais “viável” era a do secretário-geral da UEFA, o francês Henri Delaunay, que sugeriu a criação de um novo torneio continental na América do Sul, para que o seu vencedor medisse forças contra o campeão europeu.
Consequentemente, o vencedor deste confronto seria coroado como o campeão do mundo, já que naquela época o futebol nos outros continentes era praticamente inexistente.

 A ideia ganhou força, principalmente porque os clubes só precisariam sair do continente se chegassem à final do mundial - no formato ida e volta -, e contra apenas um clube de outro continente. Em 1959, a Confederação Sul-Americana de Futebol (atual CONMEBOL) anunciou a criação do novo torneio continental, a Copa Libertadores da América, para ser disputada no ano seguinte.
Curiosamente, foi à criação da competição continental que "obrigou" o Brasil a criar, em 1959, o seu primeiro campeonato nacional, a Taça Brasil - que estava aprovada pela FIFA desde Setembro de 1952 para começar a ser disputada a partir de 1955 -, exatamente para indicar um representante para a Taça Libertadores da América de 1960.


O retorno do mundial interclubes


Assim que a Copa Libertadores da América foi lançada, sul-americanos (CONMEBOL) e europeus (UEFA) acertaram que os seus respectivos campeões participariam do novo mundial interclubes, organizado em conjunto pelas duas confederações e batizado oficialmente de Copa Intercontinental.

 Falecido dois anos antes, Delaunay não conseguiu ver seu sonho se tornar realidade, mas a “sua” Copa Intercontinental - que viveu fases de altos e baixos, de recusas e até mesmo com edições canceladas na década de 70 - resistiu como a principal competição de clubes até 1979.
No ano seguinte, visando tornar a disputa mais atrativa para os clubes, principalmente no quesito financeiro, a montadora japonesa de veículos Toyota passou a patrocinar a competição, que mudou de nome e formato - passou a se chamar Copa Europeia/Sul-Americana e a ser disputada em jogo único, no Japão.

A Copa Europeia/Sul-Americana continuou sendo a principal competição de clubes até 2004, quando foi substituída no ano seguinte pelo Campeonato Mundial de Clubes (atual Copa do Mundo de Clubes), organizado pela FIFA e também patrocinado pela Toyota.

Comparativo entre os modelos de 1951/52 e 1960

A primeira competição mundial interclubes, criada em 1951, reuniu oito clubes (cinco europeus e três sul-americanos). Para chegar ao título, o campeão Palmeiras teve de passar por confrontos contra quatro clubes diferentes, e caso não fosse a Juventus a outra equipe finalista, seriam cinco clubes diferentes no caminho do Verdão, que já tinha enfrentado os italianos na primeira fase do torneio.
O Fluminense, na segunda e última edição da Copa Rio, em 1952, enfrentou cinco adversários para chegar ao título.

Em 1960, para chegar ao vice-campeonato mundial, o clube uruguaio Peñarol precisou conquistar a primeira Copa Libertadores da América.  Para tanto, o Peñarol teve de passar por três - dos sete - clubes sul-americanos participantes da competição. Depois, pela Copa Intercontinental, enfrentou o campeão europeu Real Madrid e foi derrotado, ou seja, mesmo disputando uma competição a mais para chegar ao mundial interclubes, enfrentou o mesmo número de clubes que o Palmeiras, campeão mundial em 1951, e um adversário a menos que o Fluminense, campeão mundial em 1952.

Pelos lados da Europa, o caminho do Real Madrid até chegar à decisão do mundial interclubes também não foi muito diferente: Para faturar o torneio europeu, que já estava em sua 5ª edição consecutiva, o clube espanhol passou por quatro adversários. Com o confronto contra o Peñarol pela Copa Intercontinental, o clube espanhol enfrentou, no total, cinco adversários até chegar ao título mundial.

Sendo assim, chegamos à conclusão de que ambos os torneios (mundiais de 1951/52 e 1960) se equivalem, e o fato da competição dos anos 50 não ter continuidade a partir de 1953 não tira o propósito pelo qual a mesma foi criada. De modo geral, podemos considerar que os campeonatos mundiais de 1951/52 reuniram os clubes europeus e sul-americanos dentro de uma mesma competição e, a partir de 1960, os torneios continentais passaram a ser utilizados como “eliminatórias” para a disputa de âmbito mundial interclubes.
Além disso, este modelo da Copa Intercontinental perdurou durante muitos anos (até 2004) porque facilitou a vida dos clubes, que só precisavam encarar as viagens intercontinentais caso estivessem classificados para a decisão do mundial.

Vale ressaltar ainda que, apesar do sucesso e da longevidade, a Copa Intercontinental, ao longo de sua história, também sofreu com recusas e disputas canceladas, além de campeões e vice-campeões mundiais que não eram os vencedores de seus respectivos continentes. Porém, como foi o expoente máximo que um clube de futebol poderia conquistar entre 1960 e 2004 todos os seus vencedores são considerados campeões do mundo no ranking, assim como os torneios de 1951 e 1952.

A Supercopa dos Campeões Intercontinentais

Em 1968, a CONMEBOL propôs à UEFA a criação de um torneio secundário no cenário mundial, uma espécie de recopa dos campeões mundiais (da Copa Intercontinental). Tal proposta foi aceita, no meio do caminho os clubes europeus quiseram desistir da disputa e o Santos sagrou-se campeão da Supercopa dos Campeões Intercontinentais.
Esta competição é considerada no ranking como um campeonato de valor secundário no âmbito mundial - rende ao seu vencedor 45 pontos, metade da pontuação concedida por título aos campeões mundiais. No ano seguinte, houve a realização de uma nova edição, mas que não chegou ao fim. Depois disso, nunca mais foi realizada.

O Mundial da FIFA - 2000

 No início de 1999, a Hicks Muse Tate & Furst (HMTF) anunciou um contrato de parceria com o Corinthians, campeão brasileiro do ano anterior. Meses depois, adquiriu 49% da empresa Traffic, que era de total propriedade de J. Háwilla, considerado um “rei” entre os empresários do futebol.

 Háwilla continuou no comando da Traffic e, naquela época, sua empresa tinha uma boa relação comercial com a FIFA, que já há algum tempo demonstrava vontade de expandir seus negócios para o mercado interclubes.
Aproveitando todo este cenário favorável, a HMTF, que também era dona do canal esportivo PSN, decidiu elaborar um torneio internacional, a fim de promover a marca Corinthians no cenário mundial.
Atendendo aos interesses de seus parceiros e visando lucros, a FIFA, que já tinha planos de organizar um torneio do tipo, acabou aceitando a ideia de realizar a competição no Brasil. Como não poderia deixar de ser, a Traffic foi a principal detentora dos direitos de exibição do chamado Campeonato Mundial de Clubes de 2000.

Era preciso garantir torcida - e consequentemente dinheiro - no primeiro Campeonato Mundial de Clubes oficialmente organizado pela FIFA. Com a "escolha" de Rio de Janeiro e São Paulo como cidades-sede, num formato muito semelhante ao da Copa Rio dos anos 50, ficou "mais fácil" justificar a inclusão do Corinthians, que só participou do torneio porque os organizadores do mesmo eram seus novos parceiros e tinham exatamente esta intenção.

Tanto que a surpreendente divulgação da realização deste campeonato - que ninguém imaginava que estava sendo elaborado -, já contemplando a participação do Corinthians, aconteceu em Junho de 1999, antes mesmo do Campeonato Brasileiro da temporada corrente começar, ou seja, o Timão tinha presença garantida na competição mesmo que fosse rebaixado para a segunda divisão nacional.

 O “argumento” usado pelos organizadores na época é que o Corinthians entraria por ser o campeão do país-sede. Mas como isso seria possível se o Campeonato Brasileiro de 1999 ainda não havia começado e em 1998 ninguém cogitava a realização de uma competição deste tipo no Brasil? A “desculpa” usada na época era de que "não haveria tempo para outro clube se preparar para o torneio, já que o campeonato nacional terminaria em Dezembro".

Por coincidência ou ironia do destino, o Timão, que tinha um dos melhores times do Brasil na época, caminhou até a final do Campeonato Brasileiro de 1999 e sagrou-se bicampeão, ao derrotar o Atlético Mineiro - contradizendo o discurso dos organizadores sobre a falta de tempo para a preparação para o torneio. Porém, conforme já citado anteriormente, vale destacar que em nenhum momento houve uma disputa pela vaga destinada ao campeão do país-sede no torneio, já que o Corinthians estava garantido desde a divulgação da sua realização.

Além do Timão, o clube carioca Vasco da Gama também participou do torneio exclusivamente por conta de "negócios", relegando - mais uma vez - o critério esportivo a segundo plano. Na época, entre outros interesses, foi uma maneira de a CBF "agradecer" a Eurico Miranda, presidente do Vasco da Gama, por romper os negócios que tinha com a empresa de Pelé - desafeto da CBF e concorrente da Traffic.

Assim como o Corinthians seria incluído por ter sido campeão brasileiro de 1998, nada mais "perfeito" para todas as partes indicar o Vasco - "coincidentemente" um clube da outra cidade-sede - como campeão sul-americano de 1998, ignorando o campeão da Copa Libertadores de 1999, que seria conhecido dias depois - o Palmeiras sagrou-se campeão após disputar a final contra o Deportivo Cali, da Colômbia.

Resumidamente, o Corinthians recebeu um "convite de aceitação obrigatória" para participar de uma competição internacional, idealizada por seus parceiros, que "justificariam" sua inclusão na disputa pelo fato de ter sido o campeão nacional do país-sede do ano retrasado (1998). O mesmo critério foi aplicado para justificar a inclusão do Vasco da Gama, já que não seria interessante financeiramente a presença de outro clube paulista - ou colombiano - numa competição disputada simultaneamente no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Vale destacar ainda que, por conta da falta de espaço no calendário dos clubes, o torneio foi disputado nos primeiros dias do ano 2000, em pleno verão brasileiro. Neste período, a maioria das equipes profissionais - inclusive as convidadas - estava em férias.

 Além disso, se a competição tivesse como objetivo dar ao seu vencedor o título de campeão do mundo – o que obviamente não era o caso –, não teríamos apenas a indicação de Corinthians e Vasco - convidados para atender aos interesses dos organizadores - como indevidas. Além deles, o Al Nasr e o Real Madrid também “caíram de paraquedas” no torneio.

Para se ter uma ideia, o Al Nasr, da Arábia Saudita, foi convidado por ter sido campeão de uma espécie de Recopa Asiática - não era o torneio continental e sim uma recopa - de 1998, sendo que o campeão continental de 1999 era o Júbilo Iwata, que também era o atual campeão da mesma recopa que "garantiu" o convite ao clube árabe.

O espanhol Real Madrid foi convidado por ter sido campeão mundial interclubes do ano retrasado (1998), através da Copa Europeia/Sul-Americana, que continuou sendo a principal disputa internacional de clubes até 2004.

O "curioso" é que outro grande clube europeu, o Manchester United, campeão continental de 1999 - e posteriormente mundial através da mesma Copa Europeia/Sul-Americana, em disputa contra o Palmeiras - também foi convidado e "caprichosamente" colocado no outro grupo, de modo a ser a grande atração internacional no grupo do Rio de Janeiro - e o Real Madrid disputou a primeira fase no grupo de São Paulo. Já o Palmeiras, mesmo que tivesse sido campeão mundial em 1999 diante do clube inglês, não participaria, de jeito nenhum, do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA de 2000.

Isso porque a entidade máxima do futebol e seus respectivos parceiros priorizaram o torneio exclusivamente como negócio, de acordo com seus interesses, não se preocupando, em nenhum momento, com a questão do mérito esportivo.

Portanto, dos oito clubes que participaram deste campeonato, podemos dizer seguramente que, pelo menos, metade deles foram convidados indevidamente. Soma-se a isso o fato de não ser segredo para ninguém que esse torneio de 2000 quase causou um “racha” entre UEFA e FIFA.

Clubes como Manchester United e até mesmo o Real Madrid se recusaram a participar da competição. A FIFA interveio e ameaçou punir os clubes europeus, se estes não viessem ao Brasil, o que acabou enfurecendo a entidade europeia, que cogitou a realização de suas competições de maneira independente, sem o aval da FIFA, como a Eurocopa e a Champions League.

Joseph Blatter viu que sua “teimosia” tinha ido longe demais e tentou colocar “panos quentes” para amenizar a situação. Afinal, depois da Copa do Mundo, a Eurocopa e a Champions League são as competições mais rentáveis, além de ser um absurdo imaginarmos a realização da Copa do Mundo sem a presença dos europeus.

Aliás, por falar em absurdo e em clube europeu, não podemos ignorar o fato de que se o Manchester United tivesse faturado também o torneio da FIFA, "correríamos o risco" dele se considerar "bicampeão mundial em menos de dois meses". Isso mesmo! O clube inglês disputou o indiscutível mundial de 1999 em 30 de Novembro e o mundial da FIFA - do qual acabou eliminado ainda na primeira fase - encerrou-se em 14 de Janeiro de 2000.

Seria um absurdo imaginarmos uma situação dessas, não seria - ou estamos exagerando? Mas como não foi o Manchester o campeão - ou bicampeão em dois meses -, muitas pessoas sugerem ao RCB que também conceda a pontuação "cheia" dos mundiais - 90 pontos, ao invés da metade disso - ao Corinthians, campeão desta edição.

No entanto, o objetivo do RCB é exclusivamente retratar a história - e a classificação dos clubes - do futebol brasileiro da maneira mais justa e coerente com a realidade dos fatos, atribuindo pontuações condizentes aos torneios, de acordo com aquilo que representaram na época em que foram disputados.

Portanto, considerando todos os fatos acima mencionados, aliado a todas as possibilidades absurdas que este torneio poderia proporcionar - o Manchester foi apenas um dos exemplos -, não há como equipará-lo ao que consideramos como um "legítimo mundial" só porque um clube brasileiro, no caso o Corinthians, foi o campeão - e não o Manchester United.

No Brasil, também era quase que unanimidade que este torneio já nascia comprometido, sem representatividade e com valor menor que a Copa Europeia/Sul-Americana. E dentro de campo aconteceu o esperado. Real Madrid e Manchester United, em ritmo de excursão, foram apenas figurantes e, assim como adiantara a matéria da CNN, a final foi mesmo realizada entre os dois clubes brasileiros, com o Corinthians sagrando-se vencedor, após bater o Vasco da Gama nos pênaltis.

Curiosamente, apenas para informação, o caminho do Corinthians até o título foi contra todos os times que "não deveriam" participar do torneio, com exceção ao Raja Casablanca, que teria “direito” de participar de um “mundial de verdade” naquele ano, usando como base o atual modelo do mundial interclubes, que começou a partir de 2005.

A taça recebida pelo Corinthians também não é igual à taça oferecida pela FIFA a partir de 2005 para os legítimos campeões do mundo.

Apesar de contar com grandes times, Blatter sabe que a competição não teve uma boa aceitação e que a UEFA não iria se curvar às suas decisões. Por este motivo, aliado à quebra de um dos patrocinadores (a ISL), a entidade máxima do futebol cancelou o próximo torneio, que seria disputado em 2001, na Espanha. Surgiram boatos de que o campeonato voltaria em 2003, mas a hipótese rapidamente foi rechaçada, principalmente pela UEFA.

Por todos estes motivos citados, consideramos a competição conquistada em 2000 pelo Corinthians no ranking como de valor secundário no âmbito mundial, ou seja, tal feito não rende ao Timão o título de campeão do mundo, pois a competição designada para tal naquela época era a Copa Europeia/Sul-Americana, vencida em 1999 pelo Manchester United, da Inglaterra, e em 2000 pelo Boca Juniors, da Argentina.

 Inclusive, a própria FIFA, quando criou o novo mundial interclubes, em 2005, colocou o título corintiano à parte em seu site oficial, como uma competição de importância menor e que nunca mais será disputada. Além disso, muitas foram às vezes em que a entidade máxima do futebol "esqueceu" da competição organizada por ela própria em 2000, no Brasil..

Para finalizarmos este assunto de maneira resumida, podemos considerar que o torneio mundial conquistado em 2000 pelo Corinthians está para o mundo o que a Copa Sul-Americana está para a América do Sul e o que a Copa do Brasil está para o Brasil, ou seja, trata-se de uma competição oficial, porém de menor importância em seu âmbito de disputa.

A nomenclatura do torneio também pouco importa, pois o verdadeiro campeão sul-americano é o vencedor da Copa Libertadores da América e não o da Copa Sul-Americana. Portanto, independentemente das opiniões e gafes da FIFA, o nosso compromisso é com a história, e ela nos mostra que o Corinthians não conquistou o mundo em 2000.

O atual mundial interclubes

Em 17 de Maio de 2004, a FIFA anunciou um acordo com as confederações continentais para substituir a Copa Europeia/Sul-Americana por um novo mundial interclubes, a partir do ano seguinte. A principal mudança no modelo de disputa foi à inclusão de clubes campeões de outros continentes - até então, apenas sul-americanos e europeus poderiam alcançar o topo do mundo.

 Conforme o combinado, a última edição da Copa Europeia/Sul-Americana foi disputada normalmente em 2004 e o Porto, de Portugal, sagrou-se campeão mundial. Em 2005, uma nova taça, com o formato do mundo em sua parte superior, foi desenvolvida para o novo modelo do torneio, batizado oficialmente de Campeonato Mundial de Clubes.

Em 2006 a competição apenas mudou de nome - passou a se chamar Copa do Mundo de Clubes - e, desde 2007, o clube campeão nacional do país-sede tem a chance de participar da disputa - desde que nenhum time do mesmo país vença o torneio de seu respectivo continente. Caso isso aconteça, o campeão nacional perde a vaga, pois a FIFA não permite a participação de dois clubes do mesmo país na versão atual do torneio.

Além disso, vale destacar que, como as edições do atual mundial são realizadas em países cujo futebol praticado é considerado "fraco", tais como Japão, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, até o momento apenas o campeão marroquino Raja Casablanca - na condição de "time da casa" - chegou à final do torneio, em 2013 - ocasião na qual se tornou vice-campeão mundial. Embora não seja comum a final não reunir dois campeões continentais, desde 2007 existe essa possibilidade.

E isso em nada desmerece a competição, pois hoje os critérios são muito claros e o local da disputa é anunciado com antecedência, de forma que as equipes do país-sede possam se preparar, visando à participação no mais importante campeonato interclubes do mundo.

Copa Rio de 1951 volta a ser reconhecida pela FIFA

Em 2014, a FIFA acatou um pedido da CBF para reconhecer, de maneira definitiva, o Torneio Internacional de Clubes Campeões (Copa Rio) de 1951 como a primeira Copa do Mundo de Clubes da história. Clique aqui e saiba mais.


Sobre o possível reconhecimento da segunda edição da Copa Rio (1952) e da Copa Intercontinental (1960 a 2004) como mundiais interclubes, até o momento a FIFA ainda não se manifestou de maneira oficial.

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