A crise do Oriente Médio

A história nos surpreende. De dentro do marasmo da cultura pós-moderna, do reinado insípido do neoliberalismo, da truculência de tiranos de longa data, brotam movimentos de imensa esperança. Em 2001, nascia em Porto Alegre o Fórum Social Mundial, que a grande mídia teima em desconhecer apesar de ter-se realizado 11 anos consecutivos.
Agora a surpresa veio de outro lugar. Tudo pareceu começar na Tunísia. Um jovem diplomado desempregado suicida-se, ao ser-lhe confiscada pela polícia a banca de fruta que lhe garantia a sobrevivência. Desencadeia-se revolta popular contra o Presidente tunisino que durante 23 anos governava com mão de ferro o país. E no dia 14 de janeiro de 2011 abandona o país.
Algo semelhante acontece no Egito. Mubarak no dia 11 de fevereiro larga de vez o país depois de 18 dias de protesto. Multidões encheram a praça de Tahrir e forçaram a renúncia e fuga do ditador de três décadas de despotismo. Na origem, não um suicídio, mas jovens advogados, médicos e outros interligados pela internet e usando-a para as mobilizações populares. Desaba mais um império.
Num terceiro momento, tocou a vez da Líbia. Situação semelhante. No comando tirânico do país desde 1969, Kadafi tentou conter violenta e cruelmente os rebeldes que contagiavam todo o país. As pressões contra ele vieram de dentro e de todas as partes: grandes potências, ONU, União Europeia, inúmeros governos e instituições humanitárias.
No espaço de quase dois meses três revoltas populares. Que sucede? De um lado, tirania, opressão, enriquecimento vultoso e, de outro, a multidão sofrida, perseguida, oprimida. Como os pólos se extremaram, o embate se fez violento.
Os opostos se chocam. Há outros países em situação semelhante. As imagens, o efeito-demonstração das revoltas tendem a incendiar terras secas por tanta perversidade e corrupção. A fúria do fogo ameaça.
Esses cenários, vistos por nós de longe, como um naufrágio de quem está em terra firme, escondem talvez periculosidade maior do que se imagina. A pergunta se volta para as democracias representativas. Elas não têm nenhuma figura simbólica da perversidade de seus crimes. Estes se perpetram por pessoas escondidas atrás de instituições. Os riscos que seus representantes correm não aparecem à primeira vista. Cobre-lhes certo anonimato corporativo. Qual deputado incorreu no risco de ser condenado como venal, despudorado por ter aumentado o salário daquela maneira? Vergonha sem nome.
No entanto, cabe refletir. Três ingredientes importantes interferem nas revoltas populares: insatisfação generalizada, percepção de injustiça abusiva e pólo desencadeador. E hoje com os recursos midiáticos crescem a facilidade, a rapidez e a agilidade de mobilizar as multidões, como aconteceu no Egito. Que os políticos e membros de instituições estatais ponderem a crescente insatisfação da população com seu comportamento de enriquecimento fácil e suspeito de corrupção. Daí a sensação de sentir-se injustiçada na vida salarial. E se ambos os sentimentos encontrarem um canal popular organizado...?!

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