Memórias Póstumas de Brás Cubas


Foco Narrativo

Primeira Pessoa – A história é narrada na primeira pessoa, do ponto de vista de um autor que se auto-define como um defunto-autor, ou seja, alguém que, após sua morte, decide relatar suas lembranças do passado. Ele age exatamente como um narrador-observador e protagonista da trama. Como ele transcende a vida terrena, está além das críticas e dos julgamentos de qualquer pessoa viva.

Tipo de Linguagem

O autor usa propositadamente uma linguagem repleta de duplos sentidos, de metáforas, mais erudita, pois deseja justamente criticar com fina ironia os romances publicados nos folhetins da época, os quais agradavam os leitores mais habituados a uma leitura superficial. Ele também recorre ao estilo da interlocução, pois o tempo todo o narrador-protagonista dialoga com o leitor.

Tempo

O livro tem como suporte duas temporalidades. Uma é o tempo psicológico, no qual o narrador retrata o que viveu do ponto de vista de alguém que está em outra dimensão, além da morte. Assim, ele pode retratar sua história como quiser, sem atentar a qualquer sequência cronológica. Para começar, sua própria morte é narrada antes da abordagem de seu nascimento e dos fatos que se sucederam quando ele era vivo.

O outro tempo é o cronológico. Nesse âmbito os eventos seguem um encadeamento racional. O defunto-autor conta sua meninice, os tempos da adolescência, a viagem para Coimbra e o retorno ao Brasil, até desembocar na sua morte.

Cenário

Rio de Janeiro: Terra natal do protagonista.

Coimbra: O protagonista é enviado a essa cidade de Portugal para se curar de uma desilusão amorosa e aí se gradua em Direito.

Gamboa: Bairro da região central do Rio de Janeiro; lugar do encontro entre Brás Cubas e sua amante Virgília.

Personagens

  • Brás Cubas: Ele é o narrador-protagonista, ou o “defunto autor”, como se define; um morto que decide retratar suas memórias de uma forma irônica. É dessa posição que ele julga a vida humana.
  • Virgília: Mulher do político Lobo Neves e amante do protagonista. Ela teve a oportunidade de se casar com Brás Cubas, mas optou por se tornar esposa de um homem influente e, ao mesmo tempo, manter um relacionamento clandestino com o antigo namorado.
  • Quincas Borba: Amigo de Brás Cubas, ele cria a filosofia do humanitismo.
  • Eugênia: Garota claudicante beijada pelo protagonista e depois desprezada por ele.
  • Marcela: Garota de programa com quem Brás teve um caso quando era jovem.
  • Cotrim: Marido de Sabina, irmã de Brás Cubas. Ele é um sujeito grosseiro na forma de lidar com os escravos.
  • Nhã Loló: Ela é da família de Cotrim. Sabina faz de tudo para seu irmão se casar com ela, mas a jovem morre antes da cerimônia.
  • Dona Plácida: Ex-serviçal de Virgília, ela encobre o relacionamento marginalizado entre o protagonista e Virgília.
  • Prudêncio: Antigo escravo de Brás Cubas. Após a conquista da alforria ele se torna proprietário de um escravo. Nesse serviçal ele revida todas as crueldades sofridas na sua infância.

Enredo

No prólogo, uma das passagens mais célebres desse livro, o escritor se equipara com outros autores que tinham um estilo semelhante ao seu, que também se valiam de um tom mordaz e do bom-humor em suas obras, entre eles Stendhal, Sterne e Xavier de Maistre. Assim ele admite que seu livro possa não granjear a simpatia de alguns leitores. O protagonista se recusa a esclarecer porque decidiu compor sua história após a morte.

Ao contrário de outros relatos autobiográficos, o escritor resolve iniciar sua narrativa pelo momento de sua morte. Ele se assume como um morto que se transformou em escritor. O protagonista morreu no ano de 1869, aos 64 anos, em uma chácara no Catumbi, um bairro do Rio de Janeiro. Brás era um solteirão convicto. Sua cerimônia fúnebre foi presenciada por um grupo de onze amigos.

Entre eles estão sua irmã Sabina, esposa de Cotrim, e uma mulher não identificada no início da trama, embora o protagonista esclareça que ela é não sua familiar, ainda que lastime o seu falecimento. Brás conta ao leitor que no seu atestado de óbito consta que ele morreu de pneumonia, porém ele crê que sua morte foi provocada por um lampejo em sua mente, uma ideia criativa.

Brás decidiu produzir um remédio excepcional que teria como propósito amenizar a tristeza do Homem e curar a hipocondria humana. Ele o nomearia como Emplasto Brás Cubas. Ele confessa que seu objetivo não era apenas humanitário, pois o medicamento lhe traria recursos econômicos vantajosos. Além disso, ele se tornaria famoso.

Brás narra à história de sua família, traçando um levantamento genealógico de seus ascendentes. Ele se dirige a um leitor imaginário, talvez cinco ou dez. O protagonista veio ao mundo no dia 20 de outubro de 1805, na cidade do Rio de Janeiro. Ele era fruto de uma família da elite. Seu pai era Bento Cubas, um negociante que conquistou riqueza.

Sua irmã Sabina e o cunhado Cotrin tinham uma única filha, Venância. Ele também cita os tios João, um oficial do grupo de infantaria, o sacerdote Ildefonso e Emerenciana, que ocupava uma posição de poder na meninice de Brás. No momento da sua morte ele tinha 64 anos. Duas mulheres, além de sua irmã, estavam presentes em seu velório: sua sobrinha e Virgília, uma das paixões não realizadas.

Do capítulo 1 ao capítulo nove o protagonista informa o leitor sobre os detalhes de sua morte, faz um retrospecto de sua linhagem familiar, descreve a enfermidade que o acometeu, relembra o encontro com Virgília no seu leito de enfermo e relata o pesadelo que o acometeu pouco antes da morte, no qual ele se defronta com Pandora, a divindade que tem a posse do bem e do mal na vida humana, dos quais a esperança se destaca. No capítulo 8 seu lado racional expulsa toda semente de loucura e na passagem seguinte o protagonista faz uma espécie de transição, sai da esfera do fantástico e resgata a sequência dos fatos de sua existência desde o seu nascimento.

Do capítulo 10 em diante a sua trajetória ganha uma sucessão linear. Aos nove anos ele presenciou um beijo trocado entre Dr. Vilaça, homem comprometido com o matrimônio e pai de família, e a jovem D. Eusébia.

Seu professor nesta época é Ludgero Barata, silencioso, não conhecia a fama e era sempre preciso no cumprimento dos horários. Brás estudava com Quincas Borba, o garoto mais criativo e arteiro da escola.

No ano de 1822, mesma data da independência de nosso país, ele teve seu primeiro relacionamento com Marcela, uma espécie de garota de programa dos nossos dias. Com ela o protagonista experimentou o primeiro beijo. Eles permaneceram juntos durante 15 meses. Nessa ocasião o pai o força a partir para a Europa, com o pretexto de estudar. Em Coimbra o jovem se forma em Direito.

A mãe de Brás fica enferma e o garoto aproveita a oportunidade para retornar ao seu país. Ele chega a tempo de partilhar dos seus últimos momentos na Terra. O maior objetivo de seu pai é que ele se torne deputado, o que vem a calhar com sua formação universitária, já que seu curso não lhe transmitiu a alma da justiça, e sim a técnica, a forma. A família deseja que ele fique noivo de Virgília, filha do Conselheiro Dutra, uma garota de 15, 16 anos, muito bonita e volúvel.

Nesse mesmo período Brás faz uma visita a Eusébia, a qual em 1814 ele viu beijar o homem casado. Ela tem agora uma filha, Eugênia, de 17 anos. A jovem é linda, porém manca desde o nascimento. O protagonista lhe faz a corte, porém acaba escolhendo Virgília. Ele reencontra Marcela, mais velha, com as faces carimbadas pela varíola; ela é proprietária de um pequeno negócio na Rua dos Ourives. Nesse momento ele tem uma visão; nesta alucinação Virgília é que está com o rosto semelhante ao de Marcela.

O que ninguém esperava é que Virgília fosse uma mulher gananciosa. Ela escolhe se unir a Lobo Neves, um sujeito que ela considera mais bem-sucedido que o antigo pretendente. O pai do protagonista não aceita a situação, adoece em virtude de sua contrariedade e morre.

Os filhos e o genro lutam pelos bens de Bento Cubas. Nesse episódio pode-se observar, como em outros livros do autor, a paixão pelas coisas materiais definindo a forma de agir dos personagens. O protagonista se transforma em um homem solitário, que passa o tempo produzindo textos sobre política e criando obras literárias. Ele até mesmo conquista a fama de poeta e de indivíduo polêmico.

Um primo de Virgília, Luis Dutra, também escritor de poesia, comunica Brás de que Virgília e o marido já voltaram para o Rio de Janeiro. O protagonista não hesita diante da chance de se tornar assíduo visitante da residência do casal. Com o tempo ele e Virgília se tornam amantes. Ao caminhar pela rua ele revê Quincas, o qual agora é um morador de rua. Brás doa cinco mil réis ao amigo, que lhe rouba o relógio.

Com o passar do tempo alguns amigos passam a suspeitar das relações entre Brás e Virgília. Então os dois decidem arranjar uma casa no bairro da Gamboa para seus encontros. A responsável pela residência era D. Plácida, ex-criada de Virgília. Embora a amante de Brás já tenha um filho de Lobo Neves, Nhonhô, o protagonista alimenta a ideia de ter um bebê com sua amada. O marido dela, que de nada desconfia, é indicado para ser presidente da província e propõe a Brás que seja seu secretário. O protagonista hesita diante do convite.

Quincas envia uma carta a Brás lhe restituindo o relógio furtado e nela apresenta sua tese de filosofia sobre o Humanitismo, ou o início de tudo. Há alguns capítulos neste livro que, ao invés de abordarem a trajetória existencial de Brás, expõem doutrinas filosóficas.

Alguém acaba denunciando a Lobo Neves, de forma anônima, a infidelidade de Virgília. Quando enfim o marido dela assume o posto de Presidente da Província, ambos deixam a cidade e o relacionamento clandestino de Brás com a antiga namorada chega ao fim.

O autor-defunto passa a narrar o novo encontro com Quincas Borba. O amigo da meninice relata como recebeu uma herança de um tio residente em Barcelona. Ele aproveita para esclarecer melhor sua teoria filosófica, um arremedo das teses da Ciência no século XIX. Brás fica encantado com a tese do camarada.

Enquanto isso, sua irmã tenta lhe arranjar outra pretendente, Nha Loló, e ele alimenta metas relacionadas à política. A jovem, porém, falece aos 19 anos, vítima de febre amarela. Por outro lado, o protagonista finalmente assume o posto de deputado e vai trabalhar junto a Lobo Neves. No ano de 1855 ele revê Virgília em uma festa. Embora ele se encante diante da beleza dela, nada acontece entre os antigos amantes.

Quando Brás completa 50 anos, deixa de lado a paixão pela existência. Seu amigo Quincas insiste que essa é a fase etária mais propícia às pesquisas científicas e à política. Porém nesse mesmo período a carreira como deputado chegou ao fim e o autor deixou de sentir a antiga ambição pelo poder. Seu único companheiro é Quincas, com quem compartilha o gosto pelas discussões filosóficas e a análise do real e da existência humana.

Então Virgília pede socorro a Brás; sua ex-serva e amiga, D. Plácida, está à beira da morte e precisa de ajuda. O protagonista a ampara financeiramente, arranja uma internação para a mulher na Misericórdia e aí ela morre.

Brás decide lançar um jornal que representa oposição aos governantes. Sua atitude vai contra os ideais de seu cunhado, Cotrim. Seis meses mais tarde a publicação para de circular e o protagonista reata suas relações com o cunhado e tenta dar um propósito maior a sua existência. Esta é a melhor época de sua vida, pois ele começa a trabalhar no Hospital da Ordem, onde vê sua primeira garota, a bela Marcela, deixar a vida. Nesta época ela estava desprovida de qualquer beleza, era só carne e osso, e tinha envelhecido muito. No cortiço ele reencontra Eugênia, que continua mancando e expressa uma melancolia ainda maior.

Lobo Neves também faleceu, quando ia se tornar ministro. No funeral, Brás testemunha a dor autêntica de Virgília. Quincas retorna de Barcelona mergulhado em total insanidade e logo depois morre. No derradeiro capítulo dessa obra, Brás revela uma voz incrédula e prática, realista. Ele não encontrou o sucesso na produção do emplastro, não se tornou ministro e nem encontrou uma esposa. Por outro lado, jamais precisou trabalhar para se sustentar. Sua morte também foi mais digna e ele não teve herdeiros, seres que receberiam como herança a indigência humana de Brás.

Análise

Como esta história é narrada por um personagem que já morreu, seu ponto de vista é o de um defunto-autor, alguém que passou para o outro lado e não tem mais compromisso algum com os vivos e com qualquer preceito social. Ele narra de um ângulo que transcende o tempo e o espaço. Brás analisa a vida do lado de fora da esfera humana. Ele já rompeu o véu do desconhecido e agora tem uma visão onisciente de tudo.

Como o protagonista não tem que agradar ninguém e não precisa tomar cuidado com suas palavras, ele apresenta um desprendimento moral e material absoluto; pode assim julgar sem paixão e isento da necessidade de assumir tal ou qual partido, essa ou aquela posição. Brás está além das ilusões e das hipocrisias.

O protagonista conta sua história à medida que se lembra dos eventos que se sucederam em sua existência. Ele mergulha no passado e medita sobre suas ações, comportamentos, avaliam os amigos, os familiares e revela um ponto de vista sarcástico, hipócrita e desiludido de sua própria pessoa e dos que o cercam.

É genial perceber que mesmo do outro lado Brás ainda tenta se enganar e em alguns momentos cede à tentação de desvirtuar os acontecimentos para não parecer inferior diante do leitor.

Biografia do Autor

Machado de Assis é considerado um dos melhores autores da história literária brasileira. Alguns o definem como o maior escritor de nosso país. Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro, e faleceu no ano de 1908, em sua terra natal.

O autor era mestiço em uma época de grande preconceito e, além disso, provinha de família simples; dessa forma, estudou apenas até o primário. Mesmo assim ele atingiu o status de funcionário público e dessa forma cativou a sociedade em um período histórico no qual ainda vigorava a escravidão em nosso país.

Em 1869 o escritor contraiu matrimônio com a portuguesa Carolina Xavier, ao lado de quem ele permaneceu até o momento de sua morte. Ela o incentivou o tempo todo em sua jornada pelo universo da literatura. Os dois não tiveram filhos e o autor passou o fim de sua existência sozinho. Sua mulher foi à inspiração para criação da Dona Carmo, do livro Memorial de Aires.

Ele foi o criador e o primeiro escritor a presidir a Academia Brasileira de Letras, no ano de 1897. Machado é famoso por seus inúmeros contos e ficções, porém produziu igualmente poemas, dramaturgia, crônicas e críticas literárias. Seu primeiro romance, “Ressurreição”, foi lançado em 1872.

Sua obra é classificada pelos críticos em várias etapas de criação. Histórias como “Ressurreição”, “A Mão e a Luva”, “Helena” e “Iaiá Garcia”, encaixam-se na primeira fase da carreira do autor. Porém elas já apresentam elementos do período realista de Machado: a preocupação em analisar as características psicológicas dos personagens, a ironia, o solilóquio interior e as rupturas narrativas.

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