O beijo das sombras

Esta é, com certeza, a melhor saga de vampiros já lançada no mercado editorial. Mesmo não sendo tão badalada quanto a série Crepúsculo, por exemplo, é de longe a mais inteligente, criativa, irônica e sombria. A trama é bem estruturada, os eventos perfeitamente encadeados, o suspense crescente desde as primeiras páginas, a escrita fluente e saborosa.




Ao contrário da maior parte das protagonistas de histórias de vampiros e anjos, Rose Hathaway não é exatamente o protótipo da heroína; nem mesmo a doce e angelical Lissa Dragomir preenche completamente os requisitos da mocinha frágil e sem defesas. O mesmo vale para os demais personagens, que a qualquer momento podem surpreender o leitor, apesar das aparências.



Rose não é especialmente cativante; ela age sempre como se nada tivesse a perder, sem o menor desejo de agradar seus colegas e superiores, com impetuosidade e paixão. Desta forma, é aos poucos que ela vai conquistando o leitor – pelo menos foi assim comigo. Seu humor é irônico e às vezes até mesmo cruel; ela não reprime os pensamentos, os sentimentos e nem mesmo suas atitudes, o que lhe vale o status de jovem indisciplinada e vulgar.



O cenário desta história é a escola São Vladimir, na qual estudam e coexistem os Moroi, vampiros mortais que se alimentam do sangue de seus fornecedores, humanos viciados na endorfina secretada pela saliva destas criaturas, mas nunca os matam, e são guiados por uma ética e uma moral rígidas; e os Dampiros, como Rose, frutos do relacionamento entre humanos e os Moroi.



Seus maiores inimigos são os Strigoi, vampiros poderosos que preservam a imortalidade consumindo o sangue dos Moroi; alguns são mortos e outros convertidos a este temível clã. Só o esforço de um número cada vez mais reduzido de guardiões dampiros pode preservar a espécie dos Moroi, da qual depende também sua sobrevivência.



Lissa e Rose são amigas de infância; ambas tiveram imediata empatia desde que se conheceram, aos 5 anos; desde então a futura guardiã assumiu a proteção da princesa. Depois de um trágico acidente que vitimou a família Dragomir, a jovem sobrevivente se torna emocionalmente instável, assume atitudes inusitadas e uma aura sombria se projeta sobre sua existência, o que leva Rose a tomar uma decisão drástica.



Disposta a tudo para proteger Lissa, uma Moroi legítima, a dampira Rose empreende uma fuga espetacular da escola. Após dois anos de clandestinidade e convivência com os humanos, elas são capturadas e levadas de volta à escola. Enquanto Lissa é obrigada a transcender seus medos e angústias, Rose se empenha nas aulas e principalmente nos treinos entre os aprendizes de guardião; seu maior objetivo é poder retomar o lugar ao lado da amiga, apta a protegê-la de seus adversários.



As duas têm que reaprender a conviver em um ambiente totalmente hierárquico, no qual a realeza se divide em várias panelinhas ocupadas em disputar poder e liderança sobre sua espécie, à custa de valores como amizade, lealdade e confiança. Imperam entre os grupos intrigas, falsidade, hipocrisia e terríveis pressões psicológicas.



Por um lado, Lissa se revela frágil demais para suportar este contexto, principalmente depois que estranhos eventos ameaçam trazer de volta antigos fantasmas do passado; de outro, ela surpreende até mesmo Rose em alguns momentos, com o uso de poderes e dons assustadores. Além do mais, a presença da morte nesta história é tão intensa que quase lhe vale o papel principal da trama, o que é muito significativo em uma narrativa voltada para o público mais jovem.



Richelle Mead revela, nesta obra, o quanto a transição para o universo adulto pode ser aterrorizante, repleta de medos, angústias, inseguranças e tristezas. Mais que isso, ela mostra o quanto este momento fundamental pode até mesmo assumir um caráter traumático, principalmente no ambiente escolar e sua rígida estrutura hierárquica; há várias passagens em que estudantes socialmente inferiores são desprezados ou humilhados por uma elite.



A autora é certamente uma das melhores neste gênero; seu estilo é inteligente, engenhoso e surpreendente; a trama é cheia de reviravoltas, surpresas e imprevisibilidades; cada elemento do enredo tem um propósito maior, o qual é revelado na hora certa. Richelle tem um ‘timing’ perfeito na sua narrativa, pois em momento algum o leitor é sobrecarregado com informações excessivas e precoces; tudo é desenvolvido no contexto mais apropriado e na hora exata. Perfeito para a compreensão de uma história complexa que em nenhum instante se torna confusa.



Richelle é uma escritora norte-americana, originária da cidade de Michigan. Formada na área de educação, ela lecionou na 8ª série em Seattle até alcançar o sucesso de seu primeiro livro, Succubus Blues. A partir de então ela passa a se dedicar integralmente à literatura. Hoje ela desenvolve simultaneamente três sagas, Georgina Kincaid, Dark Swan e a direcionada ao jovem adulto, Academia de Vampiros, da qual O Beijo das Sombras é o primeiro volume.



No Brasil já foram publicados mais dois volumes, Aura Negra e Tocada pelas Sombras, ambos também editados pela Nova Fronteira. Mais três livros da série ocupam as prateleiras das livrarias norte-americanas e prometem seguir o mesmo caminho em nosso país: Blood Promise, Spirit Bound e Last Sacrifice.

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